'não, não se pode escondê-los no armário'

E então logo alguém se indigna: com tantas questões urgentes para resolver, vai agora perder-se tempo a discutir o casamento gay? E o desemprego? A crise. Outro disparate. Equivale a defender que não se deve investir na exploração espacial enquanto não se erradicar a fome do planeta. Ainda que o autor da tirada seja um Nobel, uma coisa nada tem a ver com a outra. Não é por desistirmos do sonho caro de chegar a Marte que a taxa de mortalidade no Corno de África vai cair.

Num mundo ideal, seria mesmo um disparate perder tempo a debater o casamento gay. Pelas razões opostas. Porque é um direito individual elementar e porque, de tão evidente, a discriminação de que os homossexuais são alvo em países como Portugal (ao contrário da tão ou mais católica Espanha) pura e simplesmente não devia merecer discussão. Mas, infelizmente, merece - ainda este fim-de-semana, cerca de mil personalidades assinaram uma petição de apoio ao Movimento pela Igualdade no acesso ao casamento civil.

E merece porque há demasiados portugueses com uma resistência mesquinha a esta mudança. É crença generalizada que os gays e as lésbicas são promíscuos e incapazes de assumir compromissos duradouros ou que a homossexualidade é uma opção contrariável. Mas, dando de barato todos esses preconceitos idiotas, a questão é esta: o que têm os heterossexuais a perder se o Estado consagrar o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo? Nada.

Depois há o medo, que dá azo às interpretações mais variadas. Quem viu o filme "Milk" , se não percebia até que ponto o medo irracional pode travar a conquista de uma minoria, terá ficado esclarecido.

Este não é um assunto da moda. Se é mais ou menos importante do que outros, tudo vai da perspectiva: pergunte-se, por exemplo, aos homossexuais que querem casar-se. E pergunte-se já: qual é o problema?


(francisco camacho, no i -- vale a pena ler o texto todo)

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